segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Longo discurso em pequenos rabiscos colecionados.

A primeira vez em que sentiuu a neve tocando seu rosto foi como um susto. Chuva gelada, branca e misteriosa. Como ainda estava no comeco do inverno aquela foi uma neve de flocos pequenos. Miudos. Mas que vista sob o calor da iluminacao amarela dos postes de luz fez seu coracao tremer.
Ele adorava chuvas. Dizia que tudo comeca e termina em chuva. E para sua surpresa – e susto! – aqueles flocos broncos e suaves eram chuva calma e disfarcada. “Comeco de inverno nao costuma nevar. Nunca nesses ultimos sete anos eu tinha visto nevar em pleno novembro em Nova Iorque”, ela disse `a ele.
Entao era por isso. Nao fazia frio suficiente para os flocos de gelo manterem sua forma ao tocar a pele morna de seu rosto. Logo tudo eram goats de chuva. Goats de agua vindas do ceu.
Embaixo da luz amarela de um poste de luz em alguma esqueina do Chelsea, impossivel de lembrar com precisao qual, ele sorria. Primeiro pegou o telefone e ligou para sua irma – e melhor amiga – no Brasil. “Ta nevando no meu rosto”, ele disse. Trocaram algumas palavras, falaram sobre o frio de New York e sobre o calor que fazia no Brasil. Ele disse que sentia do falta do mar. Ela disse que queria sentir fome novamente. Ambos disseram que nao aguentavam mais fumar ao ascenderem, alem mar e simultaneamente, seus cigarros.
Tres meses aqui. Tres anos la. Dois coracoes partidos numa mesma familia. Eles riram. Eu tea mo. Eu tambem. Sempre contigo. Sempre comigo. Tchau. Tchau.

NEW YORK E’ UMA CIDADE ONDE TODOS
VEM PARA SEREM PERDOADOS.
- Shortbus -
Sua compania de cinema ja estava dentro do restaurante tentando se reaquecer. “Take your time”, ela disse em seu acento frances. Ele ainda nao estava pronto. E segundos depois daquela primeira ligacao, ele sentiu que deveria fazer uma segunda.
“Nao”, pensou. “Uma mensagem. Melhor mandar uma mensagem.” E somente tres dias depois de ter recebido um e-mail dizendo que deveriam ser so amigos, ele escreveu: “I just want to share this: it’s snowing in my face! Hope everything is ok. S.N.O.W.”
E enviou.
* * * * *
“Uou! Seis meses ja”, pensou. Sim, seis meses viendo nessa cidade que ele conheceu no verao. Heat waves assassinas, mas um prazer em andar pelas ruas e ver as pessoas com caras felizes. Agora tudo sao marshmallow man coats – aqueles horriveis casacos de neve! – e botas tao feias que ele sequer pode imaginar-se calcando uma delas.
Foi noite de Natal ha dois dias atras. Numa daquelas surpresas que a cidade costuma proporcionar, ele conheceu Cem, um jovem turco que vive em Amsterdam e esta na cidade a estudos.
Depois de uma noite de conversas maravilhosas ele ja tinha seu passaporte para a noite de Noel.
* * * * *
Enquanto fumava seu cigarro no lado de for a do cinema e sentia o frio voltar com o cair da noite, ele podia avaliar a solidao pesando em seus ossos.
As filas estavam cheias. Cinema em Union Square. As ruas estavam lotadas. Observando a movimentacao ao seu redor, um unico e infinito pensamento ocupava sua cabeca: “vai passar?”
Este buraco chamado solidao. Seria a cidade? Essa ilha de gigantes e pequenos? Seria a total falta de dinheiro? Motivacao?
Ele esta com a passagem de retorno agendada. Menos de um mes para mais um pequeno milagre mante-lo na cidade.
* * * * *
SE TIVER AMADO UM MARINHEIRO,
TERA AMADO O MUNDO INTEIRO.
- Clarice Lispector -
* * * * *
NY . 19:25
REVOLUTIONARY ROAD
REGAL UNION SQUARE THEATER


What it means being a special person?
CHOICES?!?!?!
Where is happiness?
Is it possible to have the whole/full thing?

CAN LOVE SURVIVE?

Mudanca?
Como comecar?
Como fazer diferente?
Onde segurar?

VULNERAVEL.

Mario no telefone por 20 minutos. Ambos choramos muito. Isso ‘e o que chamamos saudade.
* * * * *
Sabado a noite. Ja podia comecar a contar as horas para a entrada do novo ano. As ruas da cidade estao envoltas em nevoa. Cansado de ficar em casa, decidiu ir ao cinema.
Desde seus primeiros passos for a de casa gostou de imaginar que estava em outra cidade. London, talvez. Foggy night. Criou um personagem para si mesmo e vestido em neblina comecou a desfilar.
Ele sabia que estava fumando demais. Mas nao oprimiu seu desejo e aplicou mais nove dollars em outro pack de Malboro Ultra Light.
Fumava demais. Bebia demais. Parou de ir `a academia. Comia de menos. “Me sinto frio”, confidenciou a dua amiga no Brasil pelo telefone. “Me olho no espelho e nao me gusto mais como antes. Mas nao consigo voltar atras. E’ algo em que me pus. E’ um ciclo de feiura e vicios que necessito viver ate o fim. Mas quer saber? Ja esta acabando. Posso sentir. Deixa o ano de Ogun comecar.” E riram.
* * * * *
NYC. TRAIN 2. 09:19 P.M.

HEADACHE
SOLITUTE
MOVIE: THE WRESTLER
CLEARVIEW CHELSEA THEATER


What are you looking for?
* * * * *
Me pergunto sobre a forca dos limites. A vontade de ir alem, mesmo que para mais um drink – um apenas, porque este ‘e o limite do meu dinheiro – e uma quantidade ilimitada de cigarros.
Bem, nao tao ilimitada assim. Olho o meu maco agora e conto dezesseis.
Dezesseis cigarros e um drink: o limite do meu dinheiro versus o limite do meu corpo. Um tanto cansado, preciso afirmar. Meu estomago ja nao e’ mais o mesmo depois dessa overdose de coqueteis e fumo substituindo algumas refeicoes nos ultimos 30 dias. “Meu Deus! Trinta dias!” 36, sendo exato. Trinta e seis dias sem ver aquele que encheu parte dos meus dias nessa cidade. Parte dos meus pensamentos e desejos e oracoes.
Apenas outro homem-menino andando por ai com o coracao cheio. E agora esse coracao esta de saco cheio. Risos.
“CORACAO SACO. Tai! O nome da minha proxima obra prima.
Quem se importa?
E ainda escuto a voz de Marisa Tomei dizendo:
- I’m here. I’m really here.”
* * * * *
O que voce carrega nos seus bolsos?
Somente minhas maos geladas.
E uma vontade,
De quando sentr quente
Novamente
Tira-las dos esconderijos de meu
Jeans azul
Abri-las de frente
Ao mundo
E export as linhas que
Agora estao cheias.
* * * * *
SUNDAY. NOT A SUN DAY.
The sky is gray, but is not that cold. I went to gyn but I couldn’t work out for more than 40 minutes. After one month without any exercise this is the result: a tired body.
I left the gym and I tried to find some cheap clothes in H&M. Impossible. My cheap thing is at now ABAIXO DA LINHA DA POBREZA.
I’m hating my clothes. I don’t have anything new since a long time. Everything is smelling old. Am I smelling old? Probably.
I need some change. I need to figure it out about this changing.
But how?
Where?
Tomorrow I’m going to try a new job. In a Brazilian Jazz Samba Club. I hope to get it. I want to get it.
* * * * *
Resting her head against the cold, shiny window-pane,
she looked into the neighbour's yard,
at the great world of the
chickens-that-did-not-know-they-were-about-to-die.
- Near to the Wild Heart -
- Clarice Lispector -
He was alone. He was
unheeded, happy and near
to the wild heart
of life
- A Portrait of the Artist as a Young Man -
- James Joice -
THE SAILOR'S FAREWELL
- You do understand, don't you, Mummy, that
I cannot love you for the
rest of my life.
- The Foreign Legion -
- Clarice Lispector -
* * * * *
Como qualquer outro lugar do mundo, New York pode ser realmente triste num domingo quando voce nao tem um trabalho, dinheiro e amigos – que vivam a mesma situacao que voce ou outros que possam te lancar o um outro level.
Mas nao escrevo isso com qualquer tipo de pesar. Depois de algum tempo – como em qualquer outro lugar do mundo – voce se acostuma.
Salve meus ultimos centavos ainda posso me sentar em um SUBWAY e comer um PHILLY CHEESESTEAK e beber coca-cola, ouvindo um tipo de musica que poderia lever um homem em minha situacao ao topo da escala do fundo do poco. RISOS. Patetico querer parecer superior a isso tudo, mas meu cabelo esta otiimo e estou vestindo uma camiseta nova com um print genial do rosto de um marinheiro. Supostamente isso me da forca, ja que remete a quem sou. Um Marinheiro.
Entretanto o meu pequeno barco esta atracado e teve sua ancora aprisionada por um nicho de corais especialissimos e furta-cor que construiu sua morada entorno das correntes de ferro antigo. Pes no chao. Pes suspensos. Pes sumersos em agues tao limpidas que posso ver centenas de anos de lixo urbano movidos pela velocidade caotica da correnteza. RIO HUDSON?
EAST RIVER, suponho, ja que agora estou entre a 4th av e 5th av vendo ordas e tribos e solitarios serem levados pela 14th st, Union Square.

Mereco outro drink?
Queria fumar WEED. Num roof top. E queria estar sozinho para isso. Fumar meu baseado, olhar a cidade do alto e dar uns berros. Gritar tao alto que me fizesse rir gargalhadas depois. Porque todo grito aqui, ‘e uma tentative de expulsar a “malese”.


WOW! Finalmente! Uma musica boa. Uma musica para mim. Obrigado DJ.
PRETENDERS – HANDS IN THE POCKET

I’m special.
So special.
… to make you notice.
* * * * *
ART BAR . 09:57P.M.

Let’s Dance – David Bowie.
I’m trying to understand amercian football.
But American football is rugby for pussies.

WE’RE
ALL IN THIS
TOGETHER.

Cade meu principe escoltado pelo exercito Otomano?
* * * * *
MONDAY . 02:48 A.M.
18TH ST 7TH AV
TRAIN 1 STATION
SAINDO DA HIRO – 18TH ST 10TH AV


Estou sentado em um dos bancos da estacao. Ao meu lado tenho um homem nos seus quarenta e alguns completamente bebado, segurando uma mala com um Garfield vestindo um chapeu de Noel. E uma garota com cara de rocker lendo um livro que nao indentifico qual.
Depois de algumas cervejas no ART BAR com amigos eu fui a HIRO encontrar com o Leandro. Eu estava me sentindo feliz e confidante. No caminho senti um cheiro de maconha. Vinha de uma menina negra super estilosa que andava na minha frente. Sem culpa alguma e sem qualquer constragimento , virei para ela e disse:
- Can I have a drag?
- Where is your accent?
- I’m from Brasil.
- It’s the first time someone ask for my weed in the streets. Take it! It’s my gift.
Fumei faceiro. Fiquei alto e cheguei ao club me sentindo lindo. Deixei minha bolsa na chapelaria e encontrei os meninos. Logo um incidente aconteceu. Um dos amigos do Leandro estava de rolo com um cara que estava na mesa com eles. Ele engatou uma conversa. Logo surgiram temas fascinantes como Tenesse Williams e Elizabeth Taylor. Quando o Carlinhos me deu a letra do que estava acontecendo me senti constrangido e disse ao amigo interessado:
- Olha, nao to afim dele nao. E’ so alguem com um papo otimo.
A merda estava feita.
Sem mais o que fazer continuei a conversa. Minutos depois encontro o Cem, que me viu e veio puxar assunto. Sem qualquer duvida escolhi o “turco”. Tentei introduzir o americano a conversa mas nao rolou. Logo o “turco” me ofereceu uma cerveja e me convidou `a buscar seus amigos argentinos que estavam hospedados na sua casa.
O que estava errado, so agora comeco a me perguntar. Conversamos, bebemos, dancamos. Ele disse que adorava meu estilo e eu disse:”Sao so roupas.” Ele respondeu: “But I like the beautiful boy inside.” “Now I’m glad”, respondi.
O que estava errado? Me pergunto agora. Eu? Querendo ser seduzido e agraciado sem limites? Ou somente a vida? Sempre ela.
Nao sei.
Meu Principe Otomano foi ao banheiro e eu aproveitei para me despedir dos amigos argentinos . Deixei um beijo ao Cem e fui embora. Longa viagem para casa. Trem 2 ate a 96th st e depois trem 1 ate a 110th st.
Queria imensamente estar novamente com aquele homem e sentir seu sour, seu peso e seu perfume. Nao tem nenhum sentimento envolvido, so esse desejo de estar-junto. Pele-pele. Corpo-corpo.
Me sinto ainda mais cansado. E estou bebado. Olho minha grafia e ela esta torta. Horrivel. Avessa. E ainda tenho um trem para trocar.
Confio ter um emprego amanha. RISOS.
Olho para tudo e sei que escrevo `a Henry Miller e seus Tropicos que nem gostei tanto assim de ler. Palavras cruzadas em alcool e drogas pelas ruas de Paris e New York.
Cheguei na 96. estou esperando o proximo trem. SHIT! New York is tough. And life is wine.
Nao tenho mais o que escrever. Estou imensamente cansado. O sono morto me perturba.
Cai do meio das paginas do meu caderno a imagem de Sao Jorge sobre o cavalo matando o dragao, Ogun que me protege, que minha irma me deu.
Lembro que nao tenho mais nenhum cigarro.
Voce pode ver meu retrato?
Mas no no no! Meu cabelo continua otimo e pareco inteiro e saudavel. RISOS.
MAIS RISOS.
Stupid Life.
E eu ainda sonhando com amor.
* * * * *
Tive uma noite ruim. Nao consegui dormir profundamente e me levantei diversas vezes para beber agua.
Acordei, oficialmente, ao meio-dia. Me sentia fraco e levemente deprimido. Tomei um anti-acido. Meu estomago doia. Preparei um omelete com torradas e geleia de morando.
Na sala, comi assistindo televisao. Desperate Housewives. Quase duas da tarde e eu precisava me preparar para uma job open call. O club de Jazz Samba Brasileiro no West Village. Quero muito esse emprego. Ou qualquer outro que custeie minha vida, ou simples permanencia, aqui.
Chego em frente aoo endereco as 03:40. O lugar ja esta tomado pelo samba doido das formigas brasileiras. Mais de cem neguinhos todos louco por uma vaga. Estou dizendo: Life is hard and New York is tough.
Ainda tenho 20 minutos e decido comprar cigarros. Vou pirar. Mas aceitei trocar meu Malboro Ultra Lights por um nao tao agradavel maco de mentolados da mesma marca, porem 3 dolares mais baratos.
Quando volto, ja passam dos cem os candidatos. SHIT! Todos entram e recebem uma fixa de emprego. Vou preenchendo a minha enquanto troco algumas palavras com uma menina do Senegal.
Entrego eu resume junto a fica devidamente preenchida - porem com um espaco em branco no campo do Social Security - e saio do bar. Troco duas palavreas com uns mulekes do Rio enquanto ascendo um cigarro. De repente encontro um rosto conhecido. Era Cristina, minha vizinha, que tambem ficou sabendo da open call.
Escuto um cara dizendo:
- Que venca o melhor!
E imediatamente penso: " Vai vencer o que tiver mais sorte". MATCH POINT. WOODY ALLEN E SUA PARANOIA. NEW YORK IS FOR LUCKY PEOPLE.

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